Um benefício que ainda poucos colaboradores conhecem
Cada vez mais empresas em Portugal instalam pontos de carregamento nos seus parques de estacionamento: por regulamentação, por reputação, ou simplesmente porque cada vez mais colaboradores conduzem elétricos. Mas poucos sabem exatamente como isto funciona na prática, ou que vantagens fiscais existem.
Se conduz um elétrico e ainda não perguntou ao seu empregador sobre isto, vale a pena: o carregamento no trabalho pode ser um benefício genuinamente vantajoso, tanto para si como, fiscalmente, para a empresa.
Para quem ainda não tem elétrico mas está a ponderar mudar, saber que a sua empresa já tem (ou está disposta a instalar) carregadores pode até pesar na decisão: reduz significativamente a dependência de carregamento público ou doméstico, sobretudo para quem não tem garagem própria.
Este artigo cobre tanto a perspetiva de quem quer usar este benefício como colaborador, como a de quem está do lado da empresa e precisa de decidir se e como instalar carregadores: as duas perspetivas complementam-se e ajudam a ter uma conversa mais informada entre ambas as partes.
A eletricidade fornecida no trabalho para carregar o carro está isenta de tributação como benefício em espécie, ao contrário de muitos outros benefícios.
Obrigações e vantagens fiscais
Desde 2020, a legislação portuguesa exige que os novos edifícios e as operações urbanísticas sujeitas a obras significativas preparem os parques de estacionamento para o carregamento elétrico. O enquadramento foi revisto pelo Decreto-Lei n.º 93/2025 e pela Portaria n.º 128/2026, de 26 de março, que substituíram a antiga regra dos dez lugares por fórmulas de cálculo: em parques não residenciais, o número mínimo de lugares preparados obtém-se por N = 0,9 + 0,1 × n, sendo n o total de lugares, com um mínimo possível de 41 lugares em parques acima de 400. Cada ponto tem de assegurar pelo menos 3.680 VA de potência.
Esta obrigação de pré-instalação é frequentemente confundida com uma obrigação de ter carregadores já operacionais, não é o caso. A lei exige que a infraestrutura esteja pronta para receber carregadores, não que estes existam desde o primeiro dia. Isto significa que, mesmo em edifícios mais antigos, a instalação de carregadores tende a ser tecnicamente mais simples e barata do que seria de esperar, precisamente por esta preparação regulamentar prévia. As instalações já existentes que precisem de ajustes têm até 31 de dezembro de 2026 para os fazer.
A parte mais vantajosa para o colaborador: a eletricidade fornecida pela empresa para carregar o veículo pessoal não é considerada rendimento em espécie sujeito a IRS, ao contrário de benefícios como o uso pessoal de viatura da empresa. Isto torna este benefício particularmente atrativo tanto para quem recebe como para quem o oferece, reforçando ainda mais o custo total de posse mais baixo de um elétrico.
Do lado da empresa, o investimento na instalação de carregadores pode ainda beneficiar de comparticipação do Fundo Ambiental, tal como acontece para particulares: com condições e limites próprios para pessoas coletivas, tipicamente associados ao número de pontos de carregamento instalados e à potência total contratada.
Como costuma funcionar no dia a dia
Modelos de acesso variam por empresa
Algumas empresas oferecem o carregamento gratuitamente como benefício, outras cobram ao preço de custo da eletricidade, e outras usam sistemas de gestão que atribuem o consumo por colaborador ou por cartão. A escolha do modelo costuma depender do número de colaboradores com elétrico e da política de benefícios da própria empresa.
Normalmente é carregamento lento (AC)
Como o carro fica estacionado várias horas durante o expediente, faz sentido usar carregadores lentos (semelhantes a uma wallbox doméstica), mais baratos de instalar em maior número. Isto permite equipar mais lugares de estacionamento com o mesmo orçamento, em vez de investir num único carregador rápido.
Pode haver limites de tempo ou rotatividade
Com procura superior à oferta de lugares com carregador, algumas empresas definem regras de rotatividade, para garantir que todos os colaboradores com elétrico têm acesso justo. Sistemas de gestão inteligente permitem, nalguns casos, notificar o colaborador quando o carro já atingiu a carga definida, libertando o lugar mais cedo para o seguinte.
Se ainda não existe, pode ser proposto
Os argumentos que costumam pesar junto da gestão de instalações ou de recursos humanos são a obrigação legal de preparar os lugares em obras novas, que já existe, e a dedutibilidade dos custos como encargo da atividade. Convém não contar com apoios diretos: à data desta atualização não existe um apoio nacional do Fundo Ambiental para carregadores privados de empresas, ao contrário do que acontece com os condomínios de habitação. Vale ainda referir o argumento de retenção e atração de talento: cada vez mais candidatos valorizam este tipo de benefício ao escolher entre propostas de emprego.
Carregamento no trabalho vs. em casa: o que muda
Para quem tem acesso a ambos, vale a pena perceber as diferenças práticas entre carregar no trabalho e carregar em casa: não são mutuamente exclusivos, e muitos condutores combinam os dois consoante a conveniência de cada dia.
Para quem não tem garagem própria em casa, o carregamento no trabalho pode até funcionar como substituto quase completo de uma wallbox pessoal, reduzindo consideravelmente a dependência de carregamento público para o uso diário. Para quem já tem wallbox em casa, o carregamento no trabalho funciona sobretudo como reforço, útil para dias de maior utilização ou trajetos mais longos que o habitual.
Do ponto de vista de quem gere as instalações da empresa, a decisão de investir em carregadores costuma pesar vários fatores: o número atual e previsto de colaboradores com elétrico, a potência elétrica disponível no edifício, e o modelo de gestão de acessos pretendido. Instalações mais simples, com poucos pontos de carregamento lento, tendem a ter um investimento inicial relativamente contido: sobretudo quando a pré-instalação regulamentar já existe, tal como referido anteriormente.
Boas práticas para equipas de RH e instalações
Para empresas que estão a ponderar instalar carregadores pela primeira vez, alguns cuidados simples ajudam a evitar problemas comuns mais tarde.
Faça um levantamento real da procura
Pergunte aos colaboradores quantos já têm ou planeiam ter um elétrico nos próximos 1-2 anos, evita subdimensionar ou sobredimensionar o investimento inicial.
Confirme a potência elétrica disponível no edifício
Vários carregadores em simultâneo exigem potência contratada suficiente: um eletricista certificado pode confirmar rapidamente se é necessário reforçar a instalação existente.
Defina critérios de acesso claros desde o início
Regras transparentes (por ordem de chegada, por rotatividade, ou por critério de distância à residência) evitam conflitos entre colegas mais tarde.
Comunique o benefício de forma clara aos colaboradores
Muitos colaboradores só descobrem este tipo de benefício por acaso: incluí-lo na comunicação interna sobre benefícios, e no processo de acolhimento de novos colaboradores, aumenta a sua utilização e valorização.
Ideias erradas sobre carregar no trabalho
"Se a minha empresa me deixar carregar de graça, isso conta como rendimento tributável."
Em Portugal, a eletricidade fornecida no trabalho para carregar o veículo pessoal está especificamente isenta desta tributação, ao contrário de muitos outros benefícios em espécie.
"Instalar carregadores é sempre um investimento avultado e complexo para a empresa."
Para poucos lugares com carregamento lento, o investimento costuma ser bastante contido: sobretudo em edifícios que já cumprem a pré-instalação regulamentar obrigatória desde 2020.
Dúvidas sobre carregamento no trabalho
As empresas são obrigadas a ter carregadores para colaboradores?
Quem paga a eletricidade quando carrego no trabalho?
Carregar no trabalho conta como benefício tributável?
O que fazer se a minha empresa ainda não tem carregadores?
Fontes
- Decreto-Lei n.º 93/2025 e Portaria n.º 128/2026: preparação de lugares de estacionamento para carregamento.
- Fundo Ambiental: apoios disponíveis e respetivos destinatários.
Informação verificada em agosto de 2026. Preços, tarifas e legislação podem alterar-se: confirme sempre os valores em vigor antes de decidir.